Capa do livro Filosofia: E Nós com Isso?, de Mario Sergio Cortella

Filosofia: E Nós com Isso? — Mario Sergio Cortella – RESUMO

Link do livro: Filosofia: E Nós com Isso?

Mario Sergio Cortella, um dos filósofos mais conhecidos do Brasil fora da academia, parte de uma pergunta que parece simples, mas carrega todo o livro: o que a Filosofia, essa disciplina tantas vezes vista como abstrata ou inútil, tem a ver com a vida prática de cada leitor — seu trabalho, sua liderança, sua ética, sua religião?

Pega o seu café, porque o livro mistura memória pessoal (a trajetória do próprio Cortella, da adolescência em Londrina à vida monástica e à carreira acadêmica) com reflexão filosófica aplicada ao cotidiano, num tom de conversa, não de tratado.

Quem é Mario Sergio Cortella

Cortella nasceu em Londrina (PR) em 1954, formou-se em Filosofia pelas Faculdades Anchieta (atual Nossa Senhora Medianeira), viveu três anos como monge na Ordem dos Carmelitas Descalços antes de decidir não seguir a vida religiosa, e construiu uma carreira de 35 anos como professor da PUC-SP, onde se tornou mestre e doutor em Educação. Foi secretário municipal de Educação em São Paulo entre 1991 e 1992 e, a partir da experiência com a mídia naquele período, tornou-se um dos “filósofos pop” brasileiros, com grande presença em livros, palestras e redes sociais.

Por dentro de Filosofia: E Nós com Isso?

O livro tem 12 capítulos, cada um organizado como uma pergunta direta (“E eu com isso?”, “O que é isso?”, “Isso não é coisa de velho?”, “E isso com Liderança?”, “E isso com Ética?”, “E isso com Religião?”, “E isso com Ecologia?”, “E isso com Política?”, “E isso com Mundo Digital?”, “E isso com Esperança?”), fechando com “Filosofia: isso é muito bom!”. A extração usada para este resumo cobriu os seis primeiros capítulos (do relato biográfico do autor até o início do capítulo sobre liderança); os capítulos sobre ética, religião, ecologia, política, mundo digital e esperança não estavam disponíveis no texto extraído, exceto pelos títulos do sumário.

Resumo capítulo por capítulo

E eu com isso?

Cortella conta sua própria trajetória: a resistência do pai à escolha de estudar Filosofia, o despertar pela leitura ainda criança (durante uma hepatite que o manteve de cama por meses), os professores que o marcaram no Colegial, a passagem pela vida monástica carmelita e a decisão, ao final de 1975, de deixar o convento e seguir a docência — carreira que o levaria à PUC-SP e, depois, à vida pública como secretário de Educação.

O que é isso?

Cortella define Filosofia como um “modo de pensar sistemático, organizado e metódico” voltado aos porquês da existência, em contraste com a Ciência, que pergunta pelos “comos”. Cita o “Conhece-te a ti mesmo” de Sócrates e insiste que a Filosofia não existe para “ensinar a pensar” (pensar é atributo da espécie), mas para produzir consciência — inclusive reconhecendo que a Filosofia pode servir a propósitos indignos, como no caso dos filósofos que serviram a regimes totalitários.

Para que serve isso?

O capítulo desconstrói mitos sobre a Filosofia (não é garantia de libertação, não torna automaticamente alguém mais ético) e defende a dúvida como ferramenta de crescimento, citando Descartes (“Penso, logo existo”) e a frase de Millôr Fernandes: “se você não tem dúvidas é porque está mal-informado”. Cortella também introduz o conceito de “insatisfação positiva”: a busca por mais e melhor, distinta da insatisfação que só reclama sem agir.

Isso não é coisa de velho?

Cortella distingue “clássico” de “arcaico”: clássico é o que vem do passado e continua vivo, emocionando e fazendo sentido hoje (Platão, Beethoven, Paulo Freire); arcaico é o que perdeu relevância e deveria ficar no passado. Também separa “novo” (o que ainda incomoda e revoluciona, como a Semana de Arte Moderna de 1922) de “novidade” (o que o mercado lança e descarta rapidamente).

E isso com o meu Trabalho?

O capítulo aplica a reflexão filosófica à carreira: distingue sonho (meta buscada e nunca plenamente alcançada) de delírio (fantasia inviável), defende a flexibilidade (capacidade de mudar de rota por boas razões) sem confundi-la com volubilidade (abandonar convicções com facilidade), e separa emprego (“fonte de renda”) de trabalho (“fonte de vida”). Lista quatro posturas essenciais no mundo profissional atual: flexibilidade, capacidade de agregar competências coletivamente, consciência ética e entendimento de que carreira é dinâmica, não linear.

E isso com Liderança?

Cortella argumenta que liderança não é dom, mas capacidade desenvolvida, e que é sempre circunstancial: ninguém lidera em todos os contextos ao mesmo tempo. Distingue liderança (atitude) de chefia (posição hierárquica) e recorre ao conceito aristotélico de virtude como “força intrínseca” que se atualiza na prática — como a semente que contém virtualmente a árvore.

O que os capítulos seguintes prometem

Segundo o sumário, os capítulos restantes tratam da relação da Filosofia com ética, religião, ecologia, política, o mundo digital e, por fim, a esperança. Como esse conteúdo não estava disponível na extração usada para este resumo, não é possível detalhar seus argumentos com segurança.

Ideia central, em uma frase

“Filosofia é um modo de pensar sistemático, organizado e metódico […] para indagar sobre os porquês.” Cortella defende a Filosofia não como disciplina acadêmica distante, mas como atitude prática de reflexão que qualquer pessoa pode exercer, em qualquer área da vida, para não viver “de modo automático, egoísta ou alienado”.

As ideias que ficam

A primeira é a distinção entre clássico e arcaico: nem tudo que vem do passado merece ser descartado como ultrapassado, nem tudo que vem do passado merece ser preservado — o critério é se ainda produz sentido e emoção genuína hoje.

A segunda é a diferença entre emprego (fonte de renda) e trabalho (fonte de vida): uma distinção prática para avaliar se a ocupação atual está alinhada com o que dá sentido à própria existência, além do salário.

A terceira é o convite à “insatisfação positiva” como motor de crescimento, em contraste com a acomodação de quem já se sente “satisfeito” — e, por outro lado, com a insatisfação meramente queixosa que não move a ação.

Onde o livro erra

O maior ponto de atenção é que, por reunir e reordenar trechos de obras anteriores do próprio autor (como o livro deixa claro na introdução), o texto tem uma estrutura um tanto fragmentada, com reflexões que às vezes se encerram de forma abrupta antes de se desenvolverem plenamente.

Outro ponto é que, ao tratar temas como liderança e carreira, Cortella às vezes generaliza fórmulas (as “quatro posturas” para o mundo do trabalho, por exemplo) com a mesma certeza filosófica que aplica a questões mais abstratas, quando essas recomendações de carreira são mais contextuais e sujeitas a debate do que o restante do livro.

Por fim, o livro é abertamente autorreferencial — cita com frequência obras anteriores do próprio Cortella — o que pode cansar o leitor que já conhece outros títulos do autor, embora funcione bem como porta de entrada para quem o lê por primeira vez.

Levando para a vida

Uma aplicação direta é testar, diante de qualquer certeza muito confortável, o espírito do “só sei que nada sei” socrático: perguntar-se o que ainda não se sabe sobre aquele assunto, em vez de descansar na primeira resposta.

Outra é usar a distinção entre sonho e delírio ao revisar metas de carreira: um sonho é um horizonte buscado passo a passo; um delírio é uma fantasia sem plano nem viabilidade.

Para quem é e o que ler depois

O livro é indicado para quem busca uma introdução acessível e aplicada à Filosofia, sem pretensão acadêmica, e já aprecia o estilo direto e aforístico de Cortella. É menos indicado para quem busca profundidade teórica ou sistematização rigorosa de uma escola filosófica específica.

Para seguir no tema, vale ler Uma Breve História da Filosofia, de Nigel Warburton, se você quiser uma introdução mais sistemática à história da disciplina, em contraste com a abordagem mais pessoal e aplicada de Cortella.

Vale a leitura?

Vale, como introdução acessível e estimulante à Filosofia aplicada ao cotidiano, com a ressalva sobre a estrutura um pouco fragmentada. Eu daria 8, com base no que foi possível conferir.

Os capítulos sobre trabalho e liderança têm aplicação prática imediata, e a reflexão sobre clássico versus arcaico é particularmente valiosa para quem quer repensar o que vale a pena preservar do passado.

Para quem já se interessa por filosofia aplicada à vida prática, ou já conhece Cortella de palestras e entrevistas, vale bastante a leitura.


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