Puxa uma cadeira
Tem livro que a gente lê e esquece. Além do Bem e do Mal não deixa. Nietzsche pega aquilo que quase todo mundo considera óbvio, como a ideia de que a verdade é sempre boa ou de que o bem e o mal são opostos claros, e faz uma pergunta simples que bagunça tudo: quem decidiu isso, e por quê?
Imagina sentar no bar ao lado de um sujeito de bigode enorme que, em vez de falar do jogo de ontem, começa a desmontar Platão, Kant, a religião, a ciência e os próprios filósofos. Ele não grita. Fala com ironia, quase rindo, como quem acha graça das coisas que levamos a sério demais.
O livro saiu em 1886 e continua mexendo com as pessoas porque toca num ponto delicado, os valores que usamos para nos sentir boas pessoas. Nietzsche quer saber de onde vieram esses valores e a quem eles servem. Depois que essa pergunta entra na cabeça, fica difícil tirar.
Nas próximas páginas a gente passa pelo livro inteiro, parte por parte, com as ideias principais, algumas frases marcantes e um pouco de conversa sobre o que fazer com tudo isso. Pega o seu café e vamos.
Quem foi Nietzsche
Friedrich Nietzsche nasceu em 1844 em Röcken, um vilarejo no leste da Alemanha. Era filho e neto de pastores luteranos. O pai morreu quando ele tinha quatro anos, e ele cresceu numa casa de mulheres muito religiosas. Vale guardar isso, porque o homem que escreveria algumas das críticas mais duras ao cristianismo veio exatamente desse ambiente.
Foi um aluno brilhante. Estudou filologia clássica, que é o estudo dos textos gregos e latinos, e com apenas 24 anos virou professor na Universidade da Basileia, na Suíça. Pouco tempo depois, a saúde começou a desmoronar. Ele serviu como enfermeiro na guerra entre a Prússia e a França e voltou doente. Daí em diante viveu com enxaquecas fortíssimas, vista fraca e problemas de estômago.
Nessa época teve uma amizade muito próxima com o compositor Richard Wagner, que depois terminou mal. Em 1879, sem condições de dar aula, deixou a universidade e passou a viver de uma pensão pequena, mudando de cidade conforme o clima. Passava os verões nos Alpes suíços e os invernos no sul da França e na Itália. Escrevia muito e quase ninguém lia.
Em janeiro de 1889, em Turim, teve um colapso mental do qual nunca se recuperou. Viveu mais onze anos sob os cuidados da mãe e da irmã e morreu em 1900, sem saber que seus livros estavam começando a ficar famosos. Hoje é difícil achar uma área da filosofia, da psicologia ou da literatura do século 20 que não tenha passado por ele.
Como esse livro nasceu
Antes deste livro, Nietzsche tinha publicado Assim Falou Zaratustra, escrito em forma de poema e parábola. Ele achava que era a obra mais importante que já tinha feito. Os leitores, os poucos que apareceram, não entenderam nada. Então ele decidiu dizer as mesmas coisas de outro jeito, mais direto, em textos curtos chamados aforismos, atacando de frente a filosofia, a religião e a moral do seu tempo.
O resultado foi Além do Bem e do Mal, publicado em 1886 com dinheiro do próprio autor. Vendeu pouquíssimo. O subtítulo mostra o que ele pretendia: “Prelúdio a uma filosofia do futuro”. Ele não queria fechar um sistema. Queria preparar o terreno para um tipo de pensador que, na opinião dele, ainda não existia. Anos depois, ele mesmo descreveu o livro como uma crítica da modernidade.
A Europa daquela época estava bem satisfeita consigo mesma. A ciência avançava rápido, a Alemanha tinha acabado de se unificar e vivia um clima forte de patriotismo, as ideias democráticas ganhavam espaço e a moral cristã continuava firme, inclusive entre quem já não frequentava igreja. Nietzsche olhou para esse cenário e viu pessoas cada vez mais parecidas entre si, mais acomodadas, chamando esse conformismo de virtude.
Um ano depois ele lançou a Genealogia da Moral, que, segundo ele, servia para completar e esclarecer este livro. Por isso os dois costumam ser lidos juntos.
O livro por dentro
O livro tem um prefácio, nove partes e um poema no final. São 296 aforismos numerados, alguns com uma linha, outros com várias páginas. Dá para abrir em qualquer lugar, mas existe um caminho. Ele começa criticando os filósofos, passa pela religião e pela moral e termina perguntando o que significa ser nobre.
O prefácio
Nietzsche abre com uma provocação. Suponha que a verdade seja uma mulher. Nesse caso, os filósofos dogmáticos, aqueles cheios de certezas, teriam sido pretendentes desastrados, chegando com uma seriedade pesada e insistente que nunca conquistou ninguém. A imagem é do século 19 e envelheceu mal, mas a ideia por trás dela é boa. Quem corre atrás da verdade com respostas prontas acaba não chegando perto dela.
Para ele, o pior erro da história da filosofia foi de Platão, que inventou um “espírito puro” e um “bem em si”, separados do corpo e do mundo real. O cristianismo seria a versão disso para as massas, um platonismo para o povo. A luta de séculos contra essas ideias, diz Nietzsche, deixou a Europa tensa como um arco puxado ao máximo, e com um arco assim dá para acertar alvos muito distantes.
Parte 1: Dos preconceitos dos filósofos
A primeira pergunta do livro já incomoda. Por que queremos tanto a verdade? Por que não a incerteza, ou até a ignorância? Todo mundo trata a vontade de verdade como algo nobre por natureza, e Nietzsche quer investigar de onde ela vem.
A tese principal dessa parte é que toda grande filosofia é, no fundo, uma confissão pessoal do seu autor. O filósofo acredita que chegou às conclusões só pela lógica, mas foi guiado por instintos, gostos e principalmente por uma intenção moral que já existia antes de qualquer argumento. Primeiro ele decide o que quer que seja verdade, depois vai atrás das razões. Kant e Spinoza levam suas alfinetadas, e os estoicos também. Eles diziam “viva de acordo com a natureza”, mas, segundo Nietzsche, só projetavam na natureza a própria moral rígida e fingiam ter encontrado essa moral lá.
Daí sai uma ideia que assusta na primeira leitura. Para Nietzsche, um juízo ser falso não é motivo suficiente para jogá-lo fora. A pergunta que importa é se ele ajuda a vida. A lógica, os números, a crença em coisas iguais e permanentes podem ser simplificações, mas sem elas a gente simplesmente não conseguiria viver.
Ele também questiona certezas que pareciam intocáveis, como o “eu penso” de Descartes. Quem garante que existe um “eu” fazendo o pensamento? Segundo ele, um pensamento aparece quando quer, e não quando eu quero. A gramática, que exige um sujeito para todo verbo, nos engana. O mesmo vale para a vontade. Querer não é um ato simples, é uma mistura de sensações, ordens e obediências acontecendo dentro da gente.
Aqui aparece o conceito que atravessa o livro todo, a vontade de potência. Para Nietzsche, o que vive não quer só se manter vivo. Quer crescer, se expandir, dar forma às coisas. Sobreviver é uma consequência disso, e não o objetivo principal.
Parte 2: O espírito livre
Depois de derrubar tanta coisa, Nietzsche pergunta quem aguenta viver sem essas certezas. A resposta é o espírito livre, um pensador independente que procura a solidão para enxergar com distância. Ele usa máscaras quando precisa, porque, nas palavras de Nietzsche, tudo o que é profundo ama a máscara. Também evita virar mártir da verdade, já que quem sofre demais por uma ideia acaba amargo e estraga o próprio pensamento.
O trecho mais prático da parte é uma lista de testes. O espírito livre não deve ficar preso a uma pessoa, por mais querida que seja, nem a uma pátria, nem à compaixão, nem a uma ciência, nem às próprias virtudes. Nem ao próprio desapego ele deve se apegar.
No fim, Nietzsche separa esse espírito livre de verdade dos “falsos” espíritos livres da época, que pregavam igualdade e conforto para todos. Ele os chama de niveladores. Os verdadeiros seriam experimentadores, gente que testa ideias na própria vida. São os filósofos do futuro que dão nome ao subtítulo.
Parte 3: O ser religioso
Nessa parte Nietzsche não discute se Deus existe. Ele quer entender o que a fé faz com a pessoa por dentro. A fé cristã dos primeiros séculos, diz ele, pedia o sacrifício da liberdade, do orgulho e da confiança da pessoa em si mesma.
Ele descreve uma espécie de escada da crueldade religiosa. No começo se sacrificavam pessoas aos deuses. Depois as pessoas passaram a sacrificar os próprios instintos. O último degrau seria sacrificar o próprio Deus e passar a adorar o nada.
Tem também uma observação curiosa sobre o santo. Os poderosos sempre se curvaram diante dele porque percebiam ali uma força enorme, a de quem consegue dominar a si mesmo. Nietzsche admite que a religião pode servir de ferramenta para educar, nas mãos certas. Mas o saldo final é duro: ao proteger tudo o que era fraco e sofredor, o cristianismo teria rebaixado o ser humano europeu até transformá-lo num animal de rebanho, dócil e mediano.
Parte 4: Máximas e interlúdios
Depois de três partes pesadas, vem um respiro. São mais de cem aforismos curtos, alguns de uma linha só, que parecem tiradas soltas numa conversa. Os temas vão do amor à vaidade, da memória à loucura. Alguns, em resumo: quem despreza a si mesmo ainda se respeita como alguém capaz de se desprezar. A maturidade de um homem está em recuperar a seriedade que tinha quando criança, ao brincar. Não existem fenômenos morais, só interpretações morais dos fenômenos. E aquilo que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal.
É a parte mais gostosa de folhear, e a que mostra melhor o Nietzsche observador de gente.
Parte 5: Para a história natural da moral
Aqui o livro fica sério de novo. Nietzsche reclama que os filósofos sempre tentaram “fundamentar” a moral, ou seja, provar que a moral em que eles já acreditavam era a correta. Ninguém tinha feito o trabalho básico de descrever e comparar as várias morais que existem, do jeito que um naturalista compara espécies.
A primeira descoberta dele surpreende. Toda moral é uma espécie de tirania contra a natureza, uma disciplina longa e rígida. E isso tem um lado bom. Tudo o que a humanidade produziu de grande, na arte, no pensamento e na própria linguagem, veio de obedecer por muito tempo a uma mesma direção.
A segunda é o diagnóstico da Europa. Como sempre houve muito mais gente obedecendo do que mandando, o instinto de obediência ficou fortíssimo. A moral que domina o continente seria uma moral de rebanho, que valoriza o que é seguro para o grupo, como a mansidão e a igualdade. Ela nasce do medo. O que é forte e independente passa a ser chamado de mau só porque assusta o vizinho. Para Nietzsche, o movimento democrático da época era o herdeiro político dessa moral cristã. A parte termina pedindo novos filósofos, capazes de reavaliar esses valores e dar outro rumo para a humanidade.
Parte 6: Nós, eruditos
Agora o alvo são os cientistas e os acadêmicos. Nietzsche reconhece o valor deles, mas acha que a ciência se separou da filosofia e começou a olhar para ela de cima, sem ter preparo para isso.
O erudito típico, segundo ele, é trabalhador e útil, mas funciona como um espelho. Reflete o mundo com objetividade e não tem vontade própria, não sabe dizer sim ou não a nada. Ele critica também o ceticismo que estava na moda, que via como sinal de vontade cansada, de gente que duvida de tudo porque não tem força para escolher.
O ponto central é a diferença entre o trabalhador da filosofia e o filósofo de verdade. Kant e Hegel, por exemplo, teriam organizado e dado forma aos valores que já existiam. O filósofo verdadeiro cria valores e diz como as coisas devem ser. Por isso ele acaba sendo a má consciência do seu tempo, alguém que incomoda e expõe as virtudes da moda.
Parte 7: Nossas virtudes
Nietzsche vira o espelho para “nós”, os europeus modernos. A primeira coisa que ele nota é que somos uma mistura. Sem um estilo próprio, o homem moderno vive experimentando roupas de outras épocas, ora grego, ora medieval, ora romântico. Disso nasce o sentido histórico, a capacidade de entender culturas muito diferentes da nossa, que é ao mesmo tempo uma virtude e um sinal de que já não sabemos bem quem somos.
Depois ele critica quem mede tudo pelo prazer e pela dor e quem coloca a compaixão acima de tudo. Querer acabar com todo sofrimento, diz ele, é querer acabar com aquilo que sempre fez o ser humano crescer. Foi a disciplina do grande sofrimento que produziu as maiores conquistas da humanidade. Em cada pessoa existe a criatura, que é matéria e sofre, e o criador, que molda e martela. Quem só tem compaixão pela criatura esquece o criador.
A honestidade intelectual é a virtude que ele aceita como “nossa”. Ele também mostra que boa parte da cultura elevada é uma forma refinada de crueldade, como o prazer da tragédia ou a dureza de conhecer coisas que contrariam nossos desejos. E propõe devolver o ser humano à natureza, enxergar o homem natural por baixo das tintas morais que passamos nele. A parte termina com aforismos sobre as mulheres que envelheceram muito mal, e voltamos a eles mais adiante.
Parte 8: Povos e pátrias
Quem acha que Nietzsche era nacionalista alemão leva um susto aqui. Ele debocha do patriotismo da época e das “febres nacionais”, e diz que a Europa, por baixo das brigas, caminha para virar uma coisa só. Ele se vê como um “bom europeu” e aponta como precursores dessa Europa nomes como Napoleão, Goethe, Beethoven, Stendhal e Heine.
Ele comenta o jeito de ser de vários povos, alemães, ingleses, franceses e judeus, usando estereótipos que hoje soam mal. Ainda assim, ao falar dos judeus, ataca os antissemitas e chega a sugerir que os agitadores antissemitas sejam expulsos do país. Os alemães levam as críticas mais pesadas, e a França aparece como a casa da cultura mais refinada da Europa.
Parte 9: O que é nobre?
A última parte é a mais citada. Toda elevação do tipo humano, diz Nietzsche, aconteceu em sociedades que reconheciam diferenças de valor entre as pessoas. Desse sentimento de distância nasceu o desejo de criar distância dentro da própria alma, de buscar estados mais raros e mais altos.
É aqui que está a famosa diferença entre moral de senhores e moral de escravos. Na moral de senhores, o nobre olha para si e diz “eu sou bom”. Bom é ser orgulhoso, generoso, corajoso, verdadeiro. Ruim é simplesmente o contrário disso, o covarde, o mesquinho, o bajulador. Na moral de escravos o ponto de partida é outro. Quem se sente fraco olha para o forte com medo e chama esse forte de mau. Bom passa a ser quem é inofensivo, paciente e humilde. Uma moral nasce de afirmar a si mesmo, a outra nasce de reagir ao outro. Nas culturas mais misturadas, as duas convivem, às vezes dentro da mesma pessoa.
O resto da parte desenha a alma nobre. Ela cria seus próprios valores em vez de pedir aprovação, tem faro para reconhecer o que é superior, sabe ficar em silêncio e usar máscaras. Nietzsche lista quatro virtudes para essa vida: coragem, discernimento, simpatia e solidão. E diz que a alma nobre tem reverência por si mesma.
O último aforismo é quase melancólico. Ele olha para os próprios pensamentos já escritos e lamenta que, no papel, eles parecem velhos e sem cor. O que se consegue fixar com palavras, diz ele, é justamente o que já estava murchando.
O poema final: Do alto dos montes
O livro fecha com um poema. Nietzsche está no alto de uma montanha esperando os amigos, mas os antigos não o reconhecem mais e vão embora. Ele aceita a perda e passa a esperar amigos novos. No fim, quem chega é Zaratustra. É o jeito poético de dizer que esse livro foi escrito para leitores que ainda iam aparecer.
Algumas frases do livro
As frases abaixo estão em tradução livre, feita a partir do original alemão de 1886. Por isso as palavras podem ser um pouco diferentes das que aparecem na sua edição. O número do aforismo é o mesmo em qualquer edição, então dá para conferir.
“Aos poucos ficou claro para mim o que toda grande filosofia foi até hoje: a confissão pessoal do seu autor e uma espécie de memórias involuntárias e despercebidas.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 6
Essa frase resume a parte 1. Por trás de qualquer sistema filosófico, por mais técnico que pareça, existe uma pessoa com medos, gostos e uma moral para defender. Vale fazer o mesmo exercício com as nossas opiniões mais firmes e perguntar quanto delas é raciocínio e quanto é história de vida.
“A falsidade de um juízo ainda não é, para nós, uma objeção contra esse juízo.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 4
Parece um elogio da mentira, mas Nietzsche está trocando a pergunta. Em vez de “isso é verdade?”, ele pergunta “isso ajuda ou atrapalha a vida?”. Muitas das nossas crenças básicas são simplificações, e mesmo assim não conseguiríamos viver sem elas.
“‘Eu fiz isso’, diz minha memória. ‘Eu não posso ter feito isso’, diz meu orgulho, e permanece inflexível. No fim, a memória cede.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 68
Três linhas e um retrato inteiro de como a gente reescreve o passado para proteger a imagem que tem de si. Da próxima vez que você tiver certeza absoluta de que nunca disse alguma coisa, vale perguntar quem está falando, a memória ou o orgulho.
“Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 108
Um raio não é bom nem mau. A moral está no olhar que colocamos sobre as coisas, e não nas coisas. É daí que vem o título do livro. Ir além do bem e do mal não significa virar alguém sem escrúpulos. Significa perceber que “bem” e “mal” são leituras que podem ser examinadas.
“Quem luta contra monstros deve tomar cuidado para não se tornar um monstro. E quando você olha por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 146
A frase mais conhecida do livro. Fala do risco de virar aquilo que se combate, e de como aquilo em que mergulhamos acaba entrando na gente. É um aviso que serve para qualquer luta, por mais justa que pareça.
“A loucura é rara nos indivíduos, mas em grupos, partidos, povos e épocas ela é a regra.”
Nietzsche, Além do Bem e do Mal, aforismo 156
Sozinha, a maioria das pessoas é razoável. Em grupo, faz coisas que nunca faria por conta própria e ainda se sente certa. É o outro lado da moral de rebanho que ele descreve na parte 5.
As ideias que ficam
Se eu tivesse que escolher o que levar desse livro, seriam cinco ideias.
A primeira é a vontade de potência. Para Nietzsche, tudo o que vive quer crescer e deixar sua marca, e não apenas sobreviver. Potência aqui não quer dizer só mandar nos outros. Pode ser o artista dominando a técnica ou o santo dominando os próprios desejos. Até coisas que parecem o oposto disso, como a humildade, podem ser jeitos mais sutis de ganhar força.
A segunda é que todo conhecimento vem de algum ponto de vista. Não existe um olhar neutro, de lugar nenhum. Nietzsche chega a dizer que até as leis da física são uma interpretação, e admite com bom humor que essa ideia dele também é. Quanto mais ângulos a gente consegue usar para olhar uma questão, melhor a enxerga.
A terceira é que os valores têm história e têm dono. O mesmo orgulho que é virtude na moral de senhores vira defeito na moral de escravos. E muitos valores que parecem generosos nascem, na verdade, do medo ou do ressentimento contra quem é mais forte.
A quarta é o alerta contra a moral de rebanho. Uma cultura que só valoriza segurança, conforto e igualdade tende a produzir gente sem vontade de se superar. Dá para discordar das conclusões políticas que ele tira disso, e muita gente discorda, mas a pergunta continua valendo.
A quinta é que, se os valores foram criados, podem ser recriados. O filósofo do futuro de Nietzsche examina o que herdou, guarda o que fortalece a vida e descarta o que enfraquece. Ficar além do bem e do mal, nesse sentido, é parar de receber valores prontos e assumir a responsabilidade por eles.
Onde Nietzsche erra
Toda boa conversa de bar inclui falar dos defeitos do amigo, e Nietzsche tem os dele.
Os aforismos sobre as mulheres, no fim da parte 7, são misóginos sem rodeio. Ele trata a emancipação feminina como sinal de decadência e repete os preconceitos do seu tempo. Logo ele, que passou o livro inteiro pedindo para desconfiar de preconceitos.
Também tem o lado aristocrático. Nietzsche defende que uma cultura elevada precisa de hierarquia e afirma que a vida, no fundo, envolve apropriação e imposição de força. Lido ao pé da letra, isso pode justificar muita coisa ruim. Há quem leia essas passagens como algo sobre o crescimento interior de cada pessoa, e não como programa político, mas o texto deixa espaço para as duas leituras.
Vale lembrar ainda o que aconteceu depois da morte dele. A irmã, Elisabeth, que era antissemita, assumiu o controle dos escritos, editou o que quis e mais tarde se aproximou do nazismo, que passou a usar Nietzsche como referência. Foi uma distorção, e a parte 8 deste livro mostra bem o desprezo dele pelo nacionalismo alemão e pelos antissemitas. Mas palavras como “senhores” e “rebanho” facilitaram essa apropriação.
Por último, o formato. Aforismo é ótimo para provocar e ruim para argumentar, e muitas vezes ele afirma em vez de demonstrar, ou generaliza sobre povos inteiros com uma segurança que não se sustenta. Nada disso tira o valor do livro, mas pede que a gente leia Nietzsche fazendo com ele as mesmas perguntas que ele ensina a fazer.
Levando para a vida
Nietzsche não escreveu manual de autoajuda e provavelmente acharia graça de alguém tentando usar o livro assim. Mesmo assim, algumas atitudes saem dele com naturalidade.
A mais útil é olhar para as regras que você segue e perguntar de onde vieram. Coisas como “homem não chora” ou “dinheiro é sujo” parecem verdades da natureza até a gente perceber que alguém ensinou, em algum momento, por algum motivo. É exatamente o que Nietzsche faz com os filósofos na parte 1.
Outra é desconfiar um pouco da própria indignação. Quando você chama alguém de mau, vale checar se não tem ressentimento no meio, se essa pessoa não tem algo que você gostaria de ter. É a moral de escravos da parte 9 acontecendo dentro da gente.
O livro também ensina a não fugir de todo desconforto. Para Nietzsche, a disciplina longa e o sofrimento bem aproveitado são o que fazem uma pessoa crescer. Nem toda dificuldade é sinal de que algo deu errado.
Tem ainda o cuidado com os abismos que a gente encara por tempo demais, a desconfiança diante da opinião unânime do grupo e o valor de reservar um pouco de solidão para pensar sem a voz do rebanho no ouvido. E, no fim, a ideia da alma nobre que tem reverência por si mesma. Na prática, isso pode ser algo tão simples quanto levar a sério as promessas que você faz para si.
Para quem é e o que ler depois
O livro é para quem gosta de ter as certezas sacudidas e sai de uma boa discussão mais animado do que ofendido. Serve muito para quem precisa tomar decisões sozinho e quer pensar com mais independência, e para quem curte psicologia e quer entender o que se esconde atrás das nossas motivações. Pede paciência, leitura devagar e vontade de discordar na margem.
Talvez não seja a melhor escolha agora para quem quer um passo a passo ou nunca leu nada de filosofia, porque Nietzsche cita Platão, Kant e Schopenhauer como se você já conhecesse todos. Quem não tem estômago para os trechos misóginos também vai se incomodar. Uma dica que ajuda: leia o prefácio, pule para a parte 4 para pegar o ritmo dele e depois volte para as partes 1, 5 e 9, que são o esqueleto do livro.
Depois dele, o caminho natural é a Genealogia da Moral, que o próprio Nietzsche escreveu para completar este livro. Crepúsculo dos Ídolos é curto e serve como um apanhado do Nietzsche maduro. Assim Falou Zaratustra fica bem mais fácil de entender depois de Além do Bem e do Mal. E para conhecer a vida por trás das ideias, a biografia Eu Sou Dinamite!, de Sue Prideaux, é uma leitura muito agradável.
Vale a leitura?
Vale muito. Eu daria nota 9.
Além do Bem e do Mal é provavelmente a melhor porta de entrada para o Nietzsche mais sério. Num livro só ele junta a crítica aos filósofos, a psicologia da religião, a análise da moral e o retrato do que poderia ser um ser humano mais elevado. Poucos livros fazem a gente pensar tanto por página.
O maior presente que ele deixa é a mudança de pergunta. Depois de ler, fica difícil ouvir alguém falar de bem, de verdade ou de virtude sem pensar em quem está falando e com que interesse. O ponto que impede a nota máxima são os trechos que envelheceram mal, principalmente sobre as mulheres e sobre os povos, além de um estilo que às vezes troca o argumento pela frase de efeito.
Mas Nietzsche nunca quis seguidores que concordassem com tudo. Queria leitores que pensassem por conta própria, inclusive contra ele. Se você terminar o livro discordando de metade e repensando a outra metade, ele cumpriu o que prometeu.