Link do livro: As Chaves de Salomão, o Rei (Clavicula Salomonis)
Este resumo trata de um tipo de livro bem diferente dos outros já publicados aqui no blog: um grimório, ou seja, um manual histórico de magia cerimonial. As Chaves de Salomão é um texto medieval, de autoria tradicionalmente atribuída ao Rei Salomão (embora isso seja historicamente contestado), que permaneceu séculos circulando apenas em manuscritos até ser traduzido e publicado em inglês, em 1889, por S. L. MacGregor Mathers, ocultista britânico e um dos fundadores da Ordem Hermética da Alvorada Dourada.
Pega o seu café, porque este resumo trata o livro como o que ele é: um documento histórico sobre a tradição da magia cabalística e cerimonial europeia, não um guia prático a ser seguido.
Quem foi S. L. MacGregor Mathers
Samuel Liddell MacGregor Mathers (1854-1918) foi um ocultista britânico, tradutor e um dos três fundadores da Ordem Hermética da Alvorada Dourada, sociedade esotérica influente no final do século XIX que também contou com membros como William Butler Yeats. Mathers traduziu e editou este livro a partir de manuscritos antigos do Museu Britânico, também sendo autor de outras obras sobre Cabala e Tarô. Segundo o próprio prefácio, a obra nunca havia sido publicada de forma completa antes de seu trabalho, permanecendo restrita a poucos pesquisadores com acesso a bibliotecas raras.
Por dentro de As Chaves de Salomão
O livro se divide em dois volumes. O Livro I trata da teoria e das invocações: começa com considerações sobre o “amor divino” necessário antes de buscar esse tipo de conhecimento, segue com tabelas de horas planetárias e nomes de anjos associados a cada planeta, instruções sobre a construção do círculo mágico, orações, conjurações e, por fim, uma extensa seção sobre “pantáculos” (talismãs), organizados por planeta (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua). O Livro II trata da prática: jejum, isolamento, vestimentas, instrumentos (facas, espadas, varinhas), incensos, tintas, pergaminhos e os preparativos rituais que, segundo o texto, deveriam preceder qualquer operação mágica.
Resumo capítulo por capítulo
A origem e a autoria duvidosa
O prefácio de Mathers já reconhece a incerteza sobre a origem real do texto: o manuscrito hebraico original estaria perdido, e a atribuição a Salomão vem de tradições que remontam ao historiador judeu Josefo e a referências em As Mil e Uma Noites, não de qualquer evidência direta de que o próprio rei bíblico tenha escrito a obra. Mathers também conecta o livro à tradição posterior, observando que o ocultista francês Éliphas Lévi usou as Clavículas como base para sua própria obra sobre magia, Dogma e Ritual da Alta Magia.
A estrutura do Livro I: invocações e pantáculos
O primeiro volume concentra o conteúdo mais “teórico” do grimório: listas de correspondências entre planetas, anjos, cores e metais (uma estrutura típica da magia cabalística e astrológica medieval), seguidas de orações e fórmulas de conjuração. A seção final e mais extensa é dedicada aos pantáculos, desenhos simbólicos associados a cada planeta, que o texto apresenta como ferramentas de proteção ou de intenção específica (desde encontrar tesouros até operações de amor ou discórdia).
A estrutura do Livro II: a prática ritual
O segundo volume é essencialmente um manual de preparação: como o praticante (chamado de “Mestre da Arte”) deveria se conduzir, jejuar, se vestir, construir instrumentos específicos e preparar materiais como pergaminho, tinta e cera antes de qualquer operação. É um retrato detalhado de como a magia cerimonial medieval entendia a necessidade de pureza ritual e preparação meticulosa como pré-condição para qualquer resultado.
Ideia central, em uma frase
“Fonte primordial e celeiro da Magia Cabalística, e origem de muitas das magias cerimoniais dos tempos medievais.” Essa descrição do próprio Mathers, no prefácio, resume bem o valor histórico do livro: mais do que um manual funcional, é um documento fundacional de toda uma tradição ocultista europeia posterior.
As ideias que ficam
A primeira é a estrutura de correspondências planetárias (planeta, anjo, cor, metal, dia da semana), um sistema de organização simbólica que influenciou boa parte da astrologia e do ocultismo ocidental que vieram depois, independentemente de qualquer crença em sua eficácia prática.
A segunda é o reconhecimento, já no prefácio do próprio tradutor, de que a autoria e a origem exata do texto são incertas, um exemplo interessante de como textos atribuídos a figuras históricas ou bíblicas famosas muitas vezes têm uma história de composição muito mais tardia e coletiva do que a atribuição sugere.
A terceira é a centralidade da preparação ritual (jejum, isolamento, pureza) como pré-requisito antes de qualquer prática, um padrão que se repete em tradições esotéricas e religiosas de épocas e culturas bem diferentes.
Onde o livro erra
O ponto mais evidente é a ausência completa de qualquer base factual ou evidência verificável para as afirmações sobre eficácia de orações, pantáculos ou conjurações: trata-se de um texto de tradição esotérica, não de um documento histórico-factual ou científico, e deve ser lido como tal.
Outro ponto é que a própria autenticidade da atribuição a Salomão é, pelos padrões de crítica histórica moderna, insustentável: trata-se de um gênero comum na literatura esotérica medieval e renascentista, atribuir textos compostos muito depois a figuras de autoridade antiga (neste caso, bíblica) para lhes dar legitimidade.
Por fim, o livro contém instruções detalhadas sobre sacrifícios e uso de partes de animais em rituais (como penas e sangue, mencionados no sumário do Livro II), reflexo de práticas e crenças de sua época, que merecem ser lidas dentro desse contexto histórico, e não como recomendação para a vida contemporânea.
Levando para a vida
Como se trata de um documento histórico, a aplicação mais direta não é prática ritual, mas curiosidade intelectual: para quem se interessa por história das religiões, folclore ou a origem de simbolismos ainda presentes na cultura pop (talismãs, círculos mágicos, invocações), o livro é uma fonte primária valiosa para entender de onde vêm esses elementos.
Outra aplicação é usar o próprio exemplo do livro para refletir sobre como qualquer afirmação de autoria antiga e prestigiosa merece verificação: o caso das Clavículas de Salomão é um bom estudo de caso sobre como textos “atribuídos” circulam e ganham autoridade ao longo dos séculos.
Para quem é e o que ler depois
O livro é indicado para quem tem interesse acadêmico ou histórico em ocultismo, magia cerimonial e a cultura esotérica europeia dos séculos XVI a XIX, especialmente leitores de Éliphas Lévi ou da Ordem da Alvorada Dourada. Não é indicado como guia prático, nem para quem busca uma leitura espiritual de aplicação cotidiana.
Para seguir no tema de espiritualidade e tradição bíblica de forma mais acessível, vale ler Segredos de Salomão: Sabedoria & Sucesso, de Daniel de Oliveira, já resumido aqui no blog, que usa a figura do mesmo rei bíblico, mas em um contexto totalmente diferente, de desenvolvimento pessoal baseado em Provérbios.
Vale a leitura?
Vale, como curiosidade histórica, e para quem já sabe o que está buscando. Eu daria 6.
O valor do livro está inteiramente no seu interesse histórico e documental, como fonte primária de uma tradição que influenciou escritores ocultistas importantes como Éliphas Lévi. Fora desse interesse específico, é uma leitura densa, repetitiva e de difícil aplicação para o leitor comum.
Para quem estuda história da magia e do esoterismo ocidental, é referência obrigatória. Para qualquer outro leitor, provavelmente não é o ponto de partida mais interessante.