Link do livro: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
Ana Suy parte de uma tese que contraria boa parte da cultura popular sobre amor romântico: não existe amor, por mais bem-sucedido e recíproco que seja, capaz de nos livrar da solidão. Para ela, amor e solidão não são opostos, são duas faces da mesma experiência de estar vivo.
Pega o seu café, porque o livro é escrito num tom de conversa, intercalando referências à psicanálise de Freud, Lacan e Winnicott com música popular brasileira, poesia e casos da própria clínica, sem a linguagem técnica de um texto acadêmico.
Quem é Ana Suy
Ana Suy é psicanalista, doutora em psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com tese sobre “Amor, feminino e solidão”, e professora de graduação em psicologia há mais de dez anos. Segundo o próprio livro, ela não pretendeu “traduzir” sua tese acadêmica para linguagem simples, mas escrever algo novo a partir do que sobrou dela depois de anos de pesquisa, em formato de bate-papo acessível a qualquer leitor.
Por dentro de A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
O livro é dividido em capítulos curtos, cada um abrindo com uma epígrafe de música, poesia ou citação psicanalítica. A extração usada para este resumo cobriu a introdução e os primeiros capítulos (de “Amor contém solidão” até “O amor acaba”, cerca de 15 dos 24 capítulos do sumário); os capítulos finais, sobre ciúme, amor-amizade e amor transferencial, são descritos aqui apenas pelos títulos que o próprio sumário do livro anuncia.
Resumo capítulo por capítulo
Amor contém solidão
O capítulo de abertura brinca com o duplo sentido do título: o amor “contém” a solidão porque ela está sempre no seu interior, mas também a “contém” no sentido de conter, de fazer a solidão mais suportável. Para a autora, ninguém ama de forma impessoal: cada pessoa ama com sua própria história e seus próprios sintomas, o que significa que “no amor a gente sempre comparece com a gente mesmo”.
No início era o amor? e Quem ainda se interessa pelo amor?
Esses capítulos tratam de como o amor (de uma mãe, de um cuidador) é condição de sobrevivência para o ser humano, diferente de outros animais, e de como a busca por alguém que “nos entenda” remete à relação mais antiga com as figuras parentais, especialmente as mães, que interpretam o choro e as necessidades do bebê antes que ele tenha palavras para isso.
De onde vem essa ideia de que há a metade da laranja?
Este capítulo revisita o mito grego de Aristófanes (narrado por Platão em O Banquete), segundo o qual os seres humanos já foram duplicados e, punidos por Zeus, foram separados em duas metades que buscam se reencontrar. Ana Suy usa esse mito para explicar a origem cultural da fantasia da “alma gêmea”, e argumenta que o amor não nos completa, na verdade duplica nossa falta: ao amar alguém, passamos a sentir falta dessa pessoa também.
Nosso primeiro amor: o Eu
A partir do conceito freudiano de narcisismo primário, o capítulo explica como a criança pequena se sente, por algum tempo, como “sua majestade o bebê”, antes de passar pela “castração” simbólica que a faz entender que não é especial nem onipotente, uma etapa dolorosa, mas necessária, segundo a autora, para que a criança consiga finalmente se interessar pelo mundo e pelos outros.
Como habitar um corpo sozinho e Solidão × sentimento de solidão
Esses capítulos distinguem solidão (um fato estrutural: nascemos e morremos sós, cada um dentro do próprio corpo) de sentimento de solidão (uma experiência subjetiva de sofrimento). Usando o conceito de Winnicott sobre a “capacidade de ficar só na presença do outro” como um estágio sofisticado do desenvolvimento psíquico, e o filme Cisne Negro como exemplo de alguém que nunca conseguiu desenvolver essa capacidade, Ana Suy defende que aceitar a própria solidão estrutural é, paradoxalmente, o que permite amar de forma mais saudável.
Amar não livra ninguém da solidão, e os capítulos sobre luto, pressa e tempo
Os capítulos seguintes (não detalhados neste resumo em profundidade) tratam de como lidar com o luto pelo amor idealizado que se pensava ter, da pressa como inimiga do amor, e de como o amor, para se desenvolver de verdade, precisa de tempo, em contraste com a lógica de satisfação imediata das relações mediadas por aplicativos.
O amor acaba
Chegando a esse capítulo, do qual a extração cobriu o início, a autora passa a tratar do fim dos relacionamentos e do medo do abandono, temas que se conectam diretamente à tese central do livro: se o amor nunca eliminou a solidão, seu fim também não a “causa” do zero, apenas revela com mais intensidade uma condição que já estava sempre lá.
O que o livro promete no restante
Segundo o sumário, os capítulos finais tratam de como “dois viram três” (chegada de filhos) e “cinco viram seis”, da aritmética simbólica da paixão, do amor e da solidão, do perigo do ciúme (normal, projetado e delirante), do amor-amizade e de um comentário sobre o amor transferencial (o afeto que surge entre paciente e analista). Como esse conteúdo não estava disponível na extração usada para este resumo, não é possível detalhar seus argumentos com segurança.
Ideia central, em uma frase
“Mira-se no amor, acerta-se na solidão.” Essa frase da própria autora, que dá título ao livro, resume toda a tese central: ao buscar um amor que preencha a própria falta, o que de fato se encontra é uma nova forma, mais aguda, de sentir essa falta, só que agora também em relação a outra pessoa.
As ideias que ficam
A primeira é a distinção entre solidão (condição estrutural, inevitável) e sentimento de solidão (uma experiência de sofrimento que pode ou não acompanhar essa condição): aceitar a primeira ajudaria a lidar melhor com a segunda.
A segunda é a crítica ao mito da “alma gêmea”: em vez de uma pessoa que nos completa, o amor duplicaria nossa falta, criando uma nova ausência (a da pessoa amada) onde antes só havia a própria.
A terceira é o conceito de Winnicott sobre ficar só na presença do outro: relações saudáveis não exigem fusão constante, mas a capacidade de duas pessoas estarem próximas sem precisar preencher cada silêncio ou cada momento com demanda mútua.
Onde o livro erra
Um ponto de atenção, inerente ao próprio gênero, é que o livro se apoia inteiramente no arcabouço teórico da psicanálise freudiana e lacaniana, uma escola de pensamento que tem defensores e críticos dentro e fora da psicologia, e que não compartilha o mesmo tipo de validação empírica de abordagens baseadas em evidência, como a terapia cognitivo-comportamental.
Outro ponto é que, ao generalizar experiências da própria clínica (como o caso do homem com delírios paranoicos ou da moça insegura com o próprio nariz) para ilustrar conceitos amplos sobre a condição humana, a autora corre o risco de passar a impressão de maior universalidade do que esses casos específicos permitem.
Por fim, embora a autora explicitamente negue qualquer intenção de “coachizar” a solidão, a linha entre uma reflexão psicanalítica sobre autossuficiência emocional e um discurso popular de autoajuda sobre “se bastar” é, em alguns trechos, mais tênue do que o livro reconhece.
Levando para a vida
Uma aplicação direta do capítulo sobre a metade da laranja é notar, na próxima vez que sentir que “falta alguém” para se sentir completo, que essa sensação pode ser menos sobre a ausência de uma pessoa específica, e mais sobre a condição humana de sempre ter uma falta constitutiva, com ou sem parceiro.
Outra, inspirada em Winnicott, é testar, numa relação próxima, momentos de estar junto sem precisar preencher o silêncio ou demandar atenção constante, observando se essa capacidade de “ficar só na presença do outro” muda a qualidade do vínculo.
Para quem é e o que ler depois
O livro é indicado para quem já tem alguma curiosidade por psicanálise e quer uma introdução acessível a conceitos como narcisismo, castração simbólica e a diferença entre solidão e sentimento de solidão, aplicados ao tema do amor. É menos indicado para quem busca conselhos práticos e diretos de relacionamento, já que o livro é mais reflexivo do que prescritivo.
Para seguir no tema, vale ler As Quatro Estações do Casamento, de Gary Chapman, já resumido aqui no blog, que trata de relacionamentos a dois a partir de uma perspectiva bem diferente, mais prática e cristã, o que permite comparar duas abordagens bastante distintas para o mesmo tema geral.
Vale a leitura?
Vale, e bastante, para quem se interessa pelo tema. Eu daria 9, com base no que foi possível conferir.
O livro consegue tornar conceitos psicanalíticos densos (narcisismo, castração, o conceito de Winnicott sobre ficar só) acessíveis e aplicáveis à experiência cotidiana do amor, sem soar raso ou excessivamente técnico. A dependência de um arcabouço teórico específico, sem contraponto de outras escolas de psicologia, é a principal ressalva.
Para quem já se perguntou por que nenhum relacionamento, mesmo os bons, parece eliminar certa sensação de solidão, é uma leitura que ajuda a nomear e entender essa experiência, em vez de prometer resolvê-la.